Enquanto Tozé Brito defende a relevância do artista, José de Pina diz que o músico é como “uma instalação da Joana Vasconcelos.”
Se havia quem dissesse que Salvador Sobral era excêntrico pelos gestos que usava na interpretação das canções, ou que Henrique Janeiro era estranho por estar sempre a comer bananas, Conan Osíris apresenta a mesma quantidade de características capaz de gerar reações que vão do amor ao ódio.
Não é por acaso que o artista, que na verdade se chama Tiago Miranda, é um dos favoritos para representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção, que este ano acontece em Israel. “Telemóveis”, o tema escrito, composto e interpretado pelo próprio, tem sido alvo de várias críticas e de análises complexas à letra e ao seu possível significado.
Mas mais uma vez, e como é habitual neste tipo de discussões, as opiniões dividem-se e há quem a adore e quem a deteste. A pensar nisso, a MAGG pediu a Tozé Brito, compositor e atual vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, e a José de Pina, humorista e escritor, que nos dessem a sua opinião sobre o fenómeno em redor do músico português.
E enquanto Tozé Brito defende a relevância de Osíris, José de Pina compara-o a uma instalação de Joana Vasconcelos. Mostramos-lhe as duas posições.
Porque é que Conan Osíris deve ir à Eurovisão? (Tozé Brito)
“Nas artes performativas, ou se preferirem, mesmo no entretenimento, a qualidade é sempre subjetiva, e o que muito agrada a uns desagrada sempre a muitos outros, não conhecendo eu unanimidades em qualquer campo artístico ou cultural, o da música incluído.
Dividem-se, inevitavelmente, as opiniões quanto à qualidade de Conan Osíris enquanto autor e intérprete no Festival da Canção, mas o único ponto de interesse é, quanto a mim, o da sua relevância social e do seu interesse público — que são claramente manifestos, já que a sua participação no festival decorreu de um convite que a própria RTP lhe dirigiu.
É, portanto, clara a sua legitimidade como concorrente e a sua liberdade para participar com a canção que mais lhe agradar, não tendo nunca que respeitar o gosto de terceiros ou de pretensas maiorias.
Pela subjetividade acima referida, não está aqui em questão a qualidade do seu trabalho. Para a julgar, só acredito no critério da longevidade, que daqui a décadas será o mais seguro indicador dessa qualidade, como o é para qualquer obra artística.
Até lá, fiquemos com o indicador da sua relevância social, com a sua legitimidade para responder afirmativamente aos convites que vier a receber, e com a sua absoluta liberdade para se expressar musicalmente como melhor entender e lhe agradar. Parabéns RTP e Conan Osíris, por levarem mais uma vez o país a ouvir e discutir a música que por cá se faz. Esse mérito já ninguém vos tira.
Sempre se discutiu e discutirá a música portuguesa nas suas múltiplas vertentes, mas o aparecimento cíclico de músicos como Conan Osíris e tantos outros que, pelas suas características, se tornam rapidamente figuras polémicas, ajuda e ajudará sempre a incentivar essa discussão. E como diz o ditado, da discussão nasce a luz.
Como com qualquer compositor, músico e intérprete, é a sua música, acima de tudo, que o destaca de outros concorrentes. Goste-se ou não, ela tem a sua marca de originalidade, tanto melódica como ritmicamente, e a sua excentricidade ajuda acima de tudo a chamar a atenção para essa música que faz. O que me parece mais cativante na pessoa de Conan Osiris é a forma livre e original como se expressa, tanto estética como musicalmente.
Se alguém soubesse o que é material de Eurovisão, todo o festival deixaria de ter interesse, encomendava-se esse material e assunto arrumado. Diria no entanto que a aposta na diferença é sempre a que reúne mais hipóteses de se aproximar do material pretendido.”
“‘Tou-me a cagar para a Conan-itite” (José de Pina)
“Acho muito bem que Conan Osíris esteja a fazer o que quer e gosta, tem mérito. Se ele é um fenómeno ou não, é algo que, citando uma frase de uma das suas músicas, ‘tou-me a cagar para a Conan-itite.
O que me tem admirado, e a culpa não é do Conan, é fazerem dele algo que não é: um projeto musical. Acho incompreensível que num dos melhores momentos de sempre do nosso pop/rock, onde bandas e músicos como Capitão Fausto, Cave Story, Benjamim, Glockenwise, Luís Severo, Jasmim (que lançou um grande primeiro álbum) e muitos outros, se dê um destaque exagerado a um rapaz com piada, sem dúvida, que atua com um dançarino, uma espécie de Bez (Happy Mondays) mas sem a graça dos ácidos.
Provoca-me constrangimento o entusiasmo de algumas pessoas ligadas à música indie, alternativa, pop, rock e fado para com o Osíris. Só vejo uma explicação: Conan Osíris é uma catarse freudiana dos guilty pleasures mais obscuros, o kitch inominável de um certo snobismo urbano-bio-vegan-gourmet. Vivemos os tempos que merecemos. Tudo é genial, tudo é original, tudo é amazing, tudo é likes.
Um mundo onde o Festival da Canção, ao fim de mais de 50 anos, é cool. Por mim, tudo bem. Eu, na minha simples e modesta opinião, vejo o Conan Osíris como uma instalação da Joana Vasconcelos.”