Nesta casa icónica da vila de Cascais, a comida é o chamariz e há pouco (ou quase nada, na verdade) a apontar aos pratos que saem da cozinha, liderada pela chef Deyse Anjos. Saiba como foi a nossa experiência.
A Casa do Largo não é só mais um restaurante bonito com potencial para fotos instagramáveis. A garantia vem de Viviane Rocha, a empresária responsável pela abertura do novo restaurante de Cascais, que é também a mulher forte por detrás de espaços icónicos da Grande Lisboa como a Vela Latina.
É que nesta casa icónica da vila de Cascais, a comida é o chamariz e há pouco (ou quase nada, na verdade) a apontar aos pratos que saem da cozinha, liderada pela chef Deyse Anjos com consultoria e supervisão do chef Benjamin Villaças, cozinheiro com décadas de experiência no Vela Latina.
Num local emblemático e muito conhecido pelos cascaenses, a nova Casa do Largo é também a concretização de um sonho para Viviane Rocha, que já tinha o espaço debaixo de olho.
“Abri a Confraria aqui ao lado em 2008 e esta casa sempre foi o restaurante ao lado do meu. Ia mudando de conceito, e nós estávamos sempre a ver esse espaço, estava sempre no canto do olho. Até que, depois do Covid, os inquilinos que estavam aqui acabaram por não renovar o contrato e saíram. E eu entrei em negociações para ficar com a casa, que sempre foi um sonho que eu tinha de vir para cá”, diz a empresária brasileira, radicada em Portugal há 25 anos.
“Eu até já tinha tentado comprar essa casa há 18 anos, imagina. Mas não estava à venda, nunca foi vendida, e os donos permanecem os mesmos. Acabei por conseguir ficar com o espaço e começar um projeto que foi muito mais demorado realmente do que eu esperava”, refere Viviane Rocha à MAGG.
O sentimento de casa é real, mas a decoração faz-nos querer tirar fotos para as redes sociais
Depois da saída da Confraria, fruto de uma divisão de quotas da sociedade que detinha os restaurantes, Viviane Rocha deixou o restaurante japonês, manteve-se com outros projetos como o Vela Latina, o Nikkei e o Forrest, e dedicou-se a este novo espaço, que não esconde ser um desafio.
“Foi o tentar recuperar aqui uma casa que é super emblemática em Cascais. Para quem é de Cascais, é uma casa com muita referência na vila, toda a gente sabe onde é a Casa do Largo. O último restaurante até se chamava Cinco Sentidos e eu fiz questão de pôr o nome do restaurante como Casa do Largo, porque qualquer pessoa sabe onde fica e conhece. E, então, foi um misto de sonho e de responsabilidade ao mesmo tempo, porque você mexer numa coisa que é tão bairrista e tão local e quando eu não sou portuguesa sequer, cria muito maior responsabilidade”, conta Viviane Rocha.
“Houve cá um bar e havia uma sala de jogos clandestina cá em cima, onde se perderam muitas fortunas e casas a jogarem aqui. Aconteceu aqui muita coisa. A sociedade reunia-se muito neste espaço, então essa casa realmente é um marco”, diz a empresária.
“Quis ir buscar um bocado do charme que se viveu aqui em outros tempos e recuperar isso mesmo. Então, mantive a traça original da casa. Claro que ela foi bastante melhorada, porque acredito que não teve grandes renovações nos últimos 30 anos”, conta a proprietária, recordando que a obra foi “complexa”, e que a cozinha foi completamente refeita.
Já no que diz respeito às salas, no total, a Casa do Largo tem uma capacidade máxima de 96 lugares no verão, a contar com a esplanada. No interior, há três espaços distintos:a zona de bar (que também conta com mesas), a sala interior e a mezaninne. O resultado são ambientes elegantes, bem decorados e onde nos sentimos em casa.
Pratos saborosos, comida portuguesa e sobremesas capazes de deslumbrar os amantes de salgados
Em equipa que ganha, não se mexe. Não fazemos ideia se Viviane Rocha leva esta máxima para os seus negócios, mas foi esta a lógica do conceito da Casa do Largo. “Quanto à comida, foi não inventar muito. É comida portuguesa com alguma influência mediterrânea, não posso dizer que é tradicional portuguesa. Temos carne, peixe, tudo de confeção muito simples, mas nós apostamos em uma matéria-prima de alta qualidade, e na minha opinião, super bem confecionado”, explica.
“O nosso foco principal é a atenção no detalhe. Seja na decoração, na mesa, naquilo que os clientes vão comer. Acho que o que define esse restaurante é que é muito cuidado e muito atento aos detalhes. É no detalhe que está o nosso grande diferencial, na minha opinião”, acrescenta Viviane Rocha.
E é essa atenção ao detalhe e ao sabor que está presente na carta da Casa do Largo, com pratos e ingredientes típicos da cozinha portuguesa que contracenam com a alma mediterrânea. Nas entradas, há opções como creme aveludado de lavagante (12€), ostras frescas (12€ por 3 unid.), camarão ao alho (21€), ovos rotos com presunto crocante (17€) e burrata (21€), entre outros.
No almoço de imprensa para conhecer a nova Casa do Largo, tivemos a oportunidade de provar propostas de entradas como carpaccio de novilho, rúcula e queijo da ilha (17€), pica pau do lombo (29€), amêijoas à Bulhão Pato (28,50€) e terrine de foie gras com coulis de framboesa (25€) — e admitimos que fizemos check em tudo o que Viviane Rocha prometeu, dado que a confeção estava praticamente a 100%.
Dizemos praticamente porque o único ponto menos bom (e com toda a noção que pode ser um gosto pessoal) foi o molho das amêijoas, que precisava de um pouco de mais intensidade no sabor. Para equilibrar, as amêijoas em si eram bem gordas e umas das mais saborosas que provámos nos últimos tempos. Quanto às restantes entradas, nada a apontar, com um pica pau com molho guloso e carne tenra (e cortado em pedaços maiores, o que gostamos), um carpaccio que ganha ao apostar no queijo da ilha e uma terrine de foie gras, que embora seja um prato não consensual, fez o nosso estômago bater palminhas.
No que diz respeito aos pratos principais, há garoupa braseada sobre risotto de bacalhau (33,50€), pregado e carabineiro com molho de coentros (34,50€), bacalhau com crosta de pão de milho (32,50€), bife à marrare (31€) e bife do lombo grelhado ou à portuguesa (31€), entre outras opções. À prova entraram duas propostas, as gambas tigre com arroz de alho (34,50€) e as plumas de porco preto ibérico com arroz de morcela (33€).
A primeira impressão, e que se verifica nas duas versões do arroz, é que dificilmente vamos encontrar melhor arroz nos próximos tempos. Solto, saboroso, e com vários níveis de sabor, não sendo demasiado intenso no com alho, e com o toque perfeito do enchido na proposta com morcela.
Com doses generosas tanto na opção de peixe como na de carne, os dois pratos foram a perfeição à mesa, com gambas cheias de suco e uma carne saborosa e delicada.
Quando pensámos que nada conseguia superar o que foi provado até aqui, chegaram à mesa as três sobremesas disponíveis na Casa do Largo. Falamos da delícia de chocolate (9€), um híbrido de mousse e bolo decadente de bom, o mil folhas com creme e frutos vermelhos (9,50€), onde a textura da massa delicada estava ao alto nível de pastelaria, e a torta de ananás com gelado de coco (9,50€), que ganhou o ouro por nos ter levado de volta à infância. Isto porque esta sobremesa é baseada nos bolos de aniversário de ananás dos anos 90, e o sabor dessas memórias está aqui presente, elevado a mil.
Para já, a Casa do Largo está aberta nos períodos de almoço e jantar, mas Viviane Rocha não esconde o plano de aumentar o horário nos próximos tempos, quando o calor chegar, e passar a um serviço sem interrupções e diário. Mensalmente, há também noites temáticas às quintas-feiras, sendo a de fevereiro dedicada ao cabaret. O espaço não vai ter menus de almoço, mas vai implementar em breve as sugestões do chef.
