Crónica. Não sou fã de festivais de verão e a culpa é das pessoas

Quem está mal muda-se, mas podemos falar de comportamentos irritantes? Como essa necessidade de gravar um concerto inteiro no telemóvel?

Não sou fã de festivais de música, nunca fui. Desde que me conheço que só fui a três: ao Rock in Rio, em 2008, ao NOS Alive, em 2012, e mais recentemente, à última edição do NOS Alive. No cartaz estavam algumas das bandas que mais curiosidade tinha em ver ao vivo, como The National, Queens of the Stone Age, Jack White e Pearl Jam. “Fábio, vais mesmo armar-te em esquisito e perder este cartaz?”, pensei para mim. E não perdi.

Mas a verdade é que cada vez que vou a um festival digo sempre que é a última vez, e isso talvez seja mais do que suficiente para explicar porque é que demoro entre quatro a seis anos a voltar a um. Aliás, foi por isso mesmo que decidi não ir a esta edição do Super Bock Super Rock.

É que as pessoas transformam-se por completo e o mais importante parece ser, ao invés de apreciar a música, conviver durante os concertos e mostrar que estiveram lá através de inúmeras fotografias, vídeos e poses mal feitas que vão diretamente para as redes sociais.

Ao contrário dos concertos em nome próprio, nos festivais de verão as pessoas não vão pelas bandas ou pelo amor à música. Vão porque é fixe, o que faz com que o público seja muito variado e isto nem sempre é um elogio.

Lembro-me que na edição de 2012 do NOS Alive eram os Radiohead, a banda britânica de rock alternativo e uma das minhas favoritas, os cabeças de cartaz. O concerto tinha tudo para ser fantástico, não fosse o facto de as pessoas ao meu lado não perceberem o conceito de festival de verão, ou de concertos no geral, e a cada pequeno toque gritarem muito incomodadas com o facto de estarem a invadir o seu espaço pessoal.

Quando várias pessoas estão confinadas num só espaço, é inevitável que haja contacto físico. Vai haver roçar de braços ou outras partes do corpo com mais ou menos violência, mais ou menos regularidade e em alturas mais ou menos esperadas. Não vale a pena lutar contra isso, ok?

Mas não se ficou por aqui. O concerto dos Radiohead ficou ainda marcado por um senhor que andava pela plateia de mochila às costas, sombrero gigante e bigode farfalhudo, a perguntar se alguém queria uma das dezenas de sandes que a mulher dele tinha feito na noite anterior.

“Ninguém quer? A mulher fez sandes para mim mas eu já estou cheio”, dizia ele. Ninguém quis, mas ele fazia questão de abrir a mala para mostrar o seu enorme carregamento de sandes de chouriço, queijo, fiambre, e mortadela.

Mas há outras duas coisas que me perturbam ainda mais do que um festivaleiro chato e falador. Em primeiro lugar, aqueles que passam os concertos de telemóvel na mão. Acontecia em 2008 (e presumo que antes disso também), e continua a acontecer agora só que em maior quantidade e grau de exagero.

O suficiente para que quem não vá aos concertos, abra o Instagram e sinta que esteve lá. Uma fotografia ou outra é normal, mas podemos falar dessa história de estarem constantemente de telemóvel em riste a gravar um concerto inteiro? Aconteceu durante os Pearl Jam, a 14 de julho, em que um senhor ao meu lado gravou o concerto TODO — mas mesmo TODO — da banda.

Não só estão durante para aí uma hora e tal a ver a banda pelo ecrã de um telemóvel como ainda sujeitam a plateia atrás ao mesmo. E o mais insólito é que, na maior parte das vezes, os telemóveis são fracos e a qualidade do som vai ser quase que impercetível na gravação.

Em segundo lugar, qual é essa necessidade quase patológica de haver palmas rítmicas, saltos, ou até mesmo mosh, em canções calmas? Uma balada clássica, arrastada e lenta não pede festa nem cânticos futebolísticos tipo “Portugal allez” mas há muito boa gente que o continua a fazer. E temos de parar com isso o mais depressa possível.

Se calhar sou eu que prefiro um ambiente mais controlado e menos frenético, mas não me queiram convencer que é normal estar durante quase duas horas a filmar uma banda, ou que faz sentido fazer de um concerto um espaço de conversas. É que num festival o som é, por si só, horrível, e ninguém precisa de ruído extra.

Claro que se quiserem MESMO conversar, pelo menos não estejam junto ao palco. E já agora, se não for pedir muito, não se sentem no chão durante um concerto e esperem não ser pisados.

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