Diretor-adjunto de Informação da SIC diz haver fotografias que mostram outras cores daquele que é conhecido como o planeta vermelho. Miguel Gonçalves, especialista em astronomia, descreve o comentário como um “atentado à ciência”.
Foi o seu mais recente livro, “Factos Escondidos da História de Portugal”, que levou, a 20 de maio, José Gomes Ferreira ao programa “Prova Oral”, de Fernando Alvim. A conversa, no entanto, foi dar a Marte, o planeta vermelho que, segundo o diretor-adjunto de Informação da SIC, não o é.
“Tudo o que está a acontecer [à frente] dos nossos olhos com as descobertas, as sondas e outros objetos enviados para Marte, tem uma parte escondida que as potências que o promovem não querem que seja revelada. Quem tem a titularidade destes grandes empreendimentos nunca quer partilhar tudo. Não acreditem na cor vermelha ou castanha de Marte. Não acreditem. Procurem na net as fotografias e os vídeos feitos pelos astrónomos amadores que, a olho nu, conseguiram ampliar a imagem de Marte e [ver que] ela tem zonas azuis, verdes e de atmosfera branca parecida com partes da terra”, refere em entrevista, cujo excerto pode ser encontrado a partir dos 12 minutos.
Questionado por Fernando Alvim sobre os motivos que o levam a acreditar nesta ideia, que há décadas é usada como pilar de várias teorias de conspiração e negacionistas, Gomes Ferreira explicou: “Porque [os cientistas] não querem revelar, para já, todas as potencialidades que lá existem. Cada potência quer manter escondida, até depois de ter tido a tecnologia, o acesso e a possibilidade de descobrir, mapear e reclamar para si. Os americanos alteram as cores do planeta Marte.”
O momento da conversa foi isolado num curto clipe de vídeo, publicado no Twitter e tornou-se viral. Face às declarações do diretor-adjunto de Informação da SIC, Miguel Gonçalves, especialista em astronomia e comentador do tema na RTP, descreve-as, num texto publicado na sua página de Facebook, como “preocupantes pontos de vista”, “que são um atentado à ciência, à história e um perigo e crime de desinformação cometido por alguém que tem um espaço mediático alargado”.
Há edição de imagem, mas não há “batota” nenhuma
Procurando desconstruir a ideia de que os cientistas alteram a cor de Marte nas imagens captadas, Gonçalves explica: “O conhecimento de um corpo astronómico — seja ele um planeta, lua, estrela ou galáxias — é geralmente feito sob ‘luzes diferentes’, ou seja, utilizando comprimentos de onda diferentes do espectro eletromagnético que vão desde o rádio (menos energético) até aos raios gama (mais energético)”.
Esta análise feita pelos cientistas, continua, acontece em diferentes energias porque cada uma delas “pode evidencia eventos, mecanismos, padrões e detalhes científicos diferentes e associados ao mesmo corpo astronómico”. Isto significa que, caso o objetivo da análise passe por encontrar corpos muitos frios, “convém fazer uma procura no comprimento do infravermelho (corpos termicamente mais frios) e rádio.”
“Além disso, a química dos compostos à superfície ou na atmosfera de um planeta são também mais visíveis em alguns comprimentos de onda do que noutros”, continua. É por isso que, quando as fotografias de uma dada análise são divulgadas, é dada a indicação “de que não se trata de uma fotografia no visível, ou seja, imediatamente percetível pelos nossos olhos, mas sim tirada ‘com outras lentes'”, esclarece.
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Apesar disso, Miguel Gonçalves explica que é frequente haver edição de imagens em que uma ou várias cores saem realçadas.
Mas alerta para o facto de isso não ser nenhuma batota — uma vez que pode haver a “necessidade de, cientificamente, realçar estruturas para certos estudos”. E mesmo nesses casos, as edições de imagem são “referidas e creditadas na literatura científica”.
Afinal, qual é mesmo a cor de Marte?
Ao contrário do que José Gomes Ferreira alegou, o planeta vermelho é, de facto, maioritariamente composto por cores avermelhadas, acastanhadas, ocre ou alaranjadas. Nos polos, diz Miguel Gonçalves, “apresenta uma tonalidade branca e azulada devido à presença de calotes gélidas”.
“A explicação simples para a cor de Marte reside no seu rególito, ou material de superfície, que contém muito óxido de ferro, o mesmo composto que explica a tonalidade do nosso sangue e a ferrugem. Ou seja, Marte tem na sua superfície imenso ferro oxidado”, explica.

Este elemento ganha o seu tom avermelhado assim que é exposto a quantidades suficientes de oxigénio.
“O que nos conta a cor de Marte é que a sua história evolutiva teve uma grande presença de água, ferro e oxigénio na sua superfície e atmosfera. Ainda hoje se questiona como é que a atmosfera perdeu grande parte da sua densidade, mas a cor de Marte está intimamente ligada à sua evolução química e atmosférica. Além disso, o óxido de ferro parece vermelho porque absorve os comprimentos de onda azul e verde do espectro luminoso ao mesmo tempo que reflecte os comprimentos de onda vermelhos.”
Mas há outro evento que, segundo o especialista em astronomia, ajuda a explicar a tonalidade avermelhada do planeta: “as tempestades de areia colossais”, ainda que de caráter ocasional, que podem transportar, de forma temporária, grandes concentrações de poeira para as zonas mais elevadas da atmosfera de Marte. É isso, explica, que ajuda a “realçar ainda mais as cores acastanhadas e alaranjadas de Marte”.
“Essa cor característica é conhecida há séculos em vários culturas e observações astronómicas porque, mesmo a olho nu, essa cor está bem presente”, conclui.