Compras online nem sempre correm bem. Ténis encomendados numa loja online chegaram atrasados e serão, alegadamente, falsos, segundo uma consumidora. A empresa nega responsabilidade.
Quando encomendou uns Adidas Gazelle através do site da Ginova, uma sapataria portuguesa com loja física em Torres Novas e um site, esta cliente da marca esperava uma experiência simples, rápida e eficaz: escolher, pagar e receber. Em vez disso, acabou envolvida numa longa batalha para tentar reaver o dinheiro de um par de ténis que, segundo alega, não passava de uma réplica. A lesada, que falou com a MAGG, pediu para não ser identificada.
“Fiz a encomenda a 5 de agosto, porque procurava uns ténis específicos para um presente e não conseguia encontrá-los em lado nenhum. Apareceu o artigo no site da Ginova, que até então parecia de confiança”, explica-nos. A compra foi feita diretamente no site da etiqueta portuguesa, com “indicação de entrega em 24 horas”, e o pagamento – no valor de 86,92€ (80,97€ pelos ténis e 5,95€ de portes de envio) – foi processado via MBWay. A fatura chegou apenas a 2 de setembro, semanas depois da encomenda.
Foi então que surgiram as primeiras bandeiras vermelhas daquele que parecia ser um problema maior. “Recebi depois um e-mail do marketplace Smooth Saturday, a indicar que a encomenda seria entregue a 5 de setembro, um mês depois do previsto. Não havia qualquer menção a este parceiro quando fiz a encomenda”, relata.
Quando os ténis chegaram, a 17 de setembro, muito mais tarde do que os dois prazos inicialmente estipulados, a consumidora deparou-se com outra surpresa. “Mal abri a caixa, percebi pelo cheiro e pela qualidade geral que não eram originais. A caixa tinha letras chinesas, as costuras estavam mal feitas, o espaço entre elas também e os acabamentos eram péssimos”, afiança, acrescentando que tirou fotografias de imediato, tal era o choque.
Veja as fotos do modelo
A tentativa de resolver a situação foi apenas combustível para toda a frustração que já sentia. A consumidora diz-nos que contactou a Ginova e enviou as fotografias como prova, mas a loja não se terá responsabilizado. “A Ginova sempre descartou a responsabilidade, dizendo que o problema era do parceiro e que só eles podiam efetuar o reembolso”, frisa.
Entretanto, devolveu os ténis a 30 de setembro, conforme as instruções recebidas — suportando ainda 10,85€ de custos de devolução —, mas até hoje não recebeu o reembolso. A par disso, depois de contactar a Smooth Saturday LDA, a empresa terá dito que se tratava de “um defeito de fabrico” e não de uma falsificação, como os e-mails trocados mostram.
Consumidores relatam casos semelhantes no Portal da Queixa
Este não é um caso isolado e parece ser apenas uma das muitas más experiências entre aqueles que fazem compras nesta marca. No Portal da Queixa, a Ginova tem 284 reclamações em seu nome, todas elas a partir de agosto e boa parte ainda a aguardar resolução, vindas de clientes que alegam ter recebido produtos falsificados da mesma e do seu parceiro, Smooth Saturday, bem como referentes a temas que vão de reembolsos em falta a envios que nunca terão sido efetuados.
A onda de contestação é tão grande que salta à vista, desde logo, um aviso: “A marca está a receber um volume elevado de reclamações e encontra-se sob análise“, lê-se. Noutros fóruns online, a situação também não é animadora. É o caso do TrustPilot, no qual a insígnia, de uma escala de zero a cinco estrelas, tem uma avaliação de 1,5 com base em 60 avaliações.

Entre os problemas relatados destacam-se má qualidade dos materiais, costuras defeituosas, etiquetas incorretas, ausência de códigos de autenticidade, embalagens diferentes das originais e tamanhos incorretos. “Como cliente, confiei na vossa marca e na garantia de que os produtos vendidos seriam originais. A recepção de um artigo contrafeito é inaceitável e lesa os meus direitos como consumidor“, acusa um dos utilizadores.
Em resposta a estas queixas, a Ginova tem mantido uma posição neutra, esclarecendo que não é responsável pela autenticidade ou qualidade dos produtos vendidos através do seu marketplace. A empresa afirma que, tendo as encomendas dos queixosos sido processadas através desse tal parceiro, este é “totalmente responsável pelo fornecimento, autenticidade, expedição e eventuais devoluções ou reembolsos”.
A marca vai ainda mais longe, dizendo que “atua apenas como plataforma intermediária, não intervindo diretamente na gestão ou qualidade dos produtos comercializados pelos parceiros”. De seguida, diz aos clientes para resolverem o problema por outra via. “Neste sentido, deverá entrar em contacto diretamente com o parceiro vendedor para resolver a questão e solicitar a devolução ou reembolso“, lê-se numa das reclamações efetuadas.
Contudo, vários consumidores alegam que a informação sobre a venda via marketplace era tudo menos clara aquando da compra. “Não estava explícito antes da compra que estávamos a comprar a um ‘parceiro’ marketplace. Considero inaceitável esta prática. A informação prestada no site é enganosa e induz o consumidor em erro“, lê-se noutra reclamação.
Situações semelhantes foram registadas no Portal da Queixa, em que consumidores afirmam que a falta de transparência no site da Ginova os levou a confiar numa compra que não compreendiam completamente. No entanto, pelo menos agora, o site da etiqueta apresenta o seguinte aviso, por baixo das opções de pagamento disponíveis: “Vendido e enviado por Smooth Saturday LDA” – algo que, alegadamente, não estaria lá antes.

Por outro lado, também no Portal da Queixa, a Smooth Saturday, que tem 314 reclamações em seu nome, rejeita igualmente as alegações de contrafação. “Gostaríamos de esclarecer que a nossa empresa não comercializa nem trabalha com qualquer tipo de artigo contrafeito. Todos os nossos produtos são adquiridos a fornecedores certificados e selecionados, cumprindo os devidos critérios de autenticidade e qualidade”, lê-se.
Uma coisa é certa: as complexidades do comércio através de marketplaces e a importância da transparência para o consumidor continuam a ser um problema. A distinção legal entre operador e vendedor, prevista no Decreto-Lei n.º 84/2021, é clara e diz que a responsabilidade pela conformidade do produto recai sobre o vendedor efetivo, mesmo quando a compra é feita numa plataforma intermediária.
Mas, afinal, de onde vêm a Ginova e a Smooth Saturday LDA?
A Ginova apresenta-se, no seu próprio site, como uma loja e marca portuguesa de calçado gerida pela Ribermanos Lda, empresa com sede em Torres Novas. Na página de “informações legais” do site, é indicado de forma explícita que este é “gerido pela Ribermanos, Lda com o NIF 515002062”, o que confirma que esta sociedade é a responsável formal pelo domínio e pela operação da plataforma online. A empresa está registada com um CAE ligado ao comércio a retalho de calçado e tem um capital social de 5.000€.
Os registos comerciais mostram que a Ribermanos foi constituída a 17 de julho de 2018, tendo sofrido alterações relevantes em 30 de junho de 2025. Os fundadores, Armindo e Lucrécia Ribeiro, renunciaram à gerência e foram substituídos por Ana Isabel Lanhas Castro, ficando também mencionada Diana Rute Sousa Mesquita como sócia. Poucos dias depois dessa alteração societária, a 2 de julho de 2025, foi criada a Smooth Saturday – Unipessoal Lda, com capital social idêntico (5.000€), sede no Porto e Mauro Ribeiro da Costa como gerente.
Desde então, começaram a surgir reclamações públicas incontáveis que estabelecem uma ligação direta entre as duas empresas. Vários consumidores relatam ter feito compras no site da Ginova, mas recebido faturas, e-mails de confirmação ou informações de expedição emitidas pela Smooth Saturday. Estas situações estão documentadas, como visto anteriormente, em todas as plataformas de defesa do consumidor.
Atualização: Após a publicação deste artigo, a redação foi contactada pelo filho dos antigos gerentes da Ribermanos, Lda., que prestou esclarecimentos adicionais e negou qualquer envolvimento dos pais na atual gestão da marca Ginova, defendendo o seu bom nome. Segundo explicou, as queixas associadas à empresa surgiram apenas depois de Armindo e Lucrécia Ribeiro cessarem funções na sociedade, em 2025, altura em que decidiram afastar-se para usufruírem da reforma, após vários anos de trabalho no setor do calçado.
Foi ainda esclarecido que o pedido de registo da marca “Ginova” pelos pais junto do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) foi submetido, mas nunca chegou a ser deferido, tendo sido recusado em diferentes ocasiões. Assim, segundo a fonte, a marca não se encontra formalmente registada em nome de qualquer titular.
Por fim, a referência anterior a uma eventual relação familiar entre estes e os responsáveis da Smooth Saturday foi removida, uma vez que este negou também qualquer relação familiar com Mauro Ribeiro da Costa, cujo apelido coincidente não é sinónimo de qualquer grau de parentesco ou ligação entre as partes.
E o que diz a Ginova?
A MAGG contactou a Ginova, que negou as acusações da lesada que chegou até nós, reafirmando que “a venda em causa foi efetuada” através do marketplace, considerando-se uma “mera intermediária tecnológica na transação”. A par disso, reiterou que não existe “prova de falsificação do artigo em questão, nem qualquer comunicação oficial por parte de uma entidade competente que o confirme”. A par disto, remeteu-nos para Leonel Costa, advogado do departamento jurídico do Ginova Group.
No entanto, ao contrário do referido pela insígnia, este disse que não costuma “estar com esse assunto”. Ainda assim, prestou algumas declarações, dizendo que tem “algum conhecimento do ponto de situação”. Segundo o advogado, a empresa “está a averiguar cada caso” e, no que diz respeito às alegadas réplicas, “se o artigo que foi devolvido é efetivamente é falsificado”.
“Eles têm resolvido algumas queixas – e tenho a ideia de que quase todas eram resolvidas –, e a promover junto desses parceiros, em alguns casos, as devoluções. Não sei agora se é tudo falsificação ou não, eu acho que não“, continua – até porque, como avança, “é necessária uma perícia formal” por parte das marcas em causa para chegar a essa conclusão.
Não obstante, Leonel Costa reforça a ideia de que a Ginova não adquire nem comercializa os produtos através do marketplace, limitando-se a fornecer a plataforma tecnológica para que os fornecedores publiquem os artigos, descartando, por isso, a familiaridade entre esta e terceiros, nunca se referindo à Smooth Saturday LDA diretamente. “Esse nome, sinceramente, não me diz nada“, frisa.
“A empresa está juridicamente a agir contra parceiros sempre que surgem suspeitas ou denúncias de utilização indevida da marca, mas não tem contacto direto com os produtos que chegam aos clientes”, explicou. O advogado acrescentou ainda que a Ginova já dispensou parceiros em casos de queixas, e que medidas contratuais foram reforçadas para prevenir novas situações similares.
Sobre a loja física, sendo que, nesse caso, a loja mete as mãos no produto, Leonel Costa explicou que a oferta disponível é mais típica, baseando-se em “artigos de produtores locais de Felgueiras, a capital do calçado, e não das grandes marcas internacionais”. O advogado garante que, embora a loja esteja em evolução, “é uma loja física muito visível” e “não tem nada dos produtos que surgem alegadamente falsificados online”.