António Costa reconhece falhas em Reguengos de Monsaraz, mas afirma: “O lar não é do estado”

O primeiro-ministro assume que existiram falhas na situação do lar alentejano, mas salienta que a instituição não pertence ao estado português. “Quando foi alertado, o estado reagiu imediatamente”.

Depois da polémica com o lar de Reguengos de Monsaraz, onde um surto de COVID-19 causou a morte a 18 pessoas, e a afirmação de Ana Mendes Godinho, que disse numa entrevista que “a dimensão dos surtos nos lares não é demasiado grande”, António Costa já surgiu em defesa da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, afirmando ter “toda a confiança” no trabalho desta.

Agora, o primeiro-ministro revela que não há dúvidas que existiram falhas no caso do lar alentejano, mas alerta que nem tudo pode ser apontado ao estado português. “Qual é a dúvida que falharam? É preciso tem em conta o seguinte: o lar não é do estado. É de uma fundação privada, que desenvolve aquele equipamento há mais de 50 anos. E, quando foi alertado, o estado reagiu imediatamente”, disse António Costa, numa entrevista ao “Expresso”.

Sobre a eventual demora na resposta do estado à situação, o governante esclareceu que existiu um alerta sobre as condições do lar de Reguengos a 18 de julho, e salientou que a “19 ou a 20 as Forças Armadas estavam a entrar no lar e a substituir-se ao pessoal e a assegurar os cuidados aos utentes, que estavam, muitos deles, em situação de abandono e de carência”. Questionado sobre o inquérito ser apenas pedido mais de 20 dias depois dos primeiros alertas, António Costa nega que a primeira resposta do estado seja abrir inquéritos.

“A primeira resposta do estado é responder às necessidades de saúde dos idosos que estão a precisar de cuidados de saúde. Tem de se salvar as pessoas, assegurar a sua saúde e prevenir as mortes. Depois trata-se de apurar as responsabilidades”, afirmou o primeiro-ministro, que também defendeu Ana Mendes Godinho, explicando que a ministra instaurou um inquérito e participou a situação do lar ao Ministério Público a 16 de julho.

Em relação ao relatório da Ordem dos Médicos, que revelou as pobres condições de higiene e segurança do lar em questão, António Costa revelou achar “normal” que Ana Mendes Godinho tenha recorrido aos assessores, e não o tenha lido.

“Estamos a falar de um relatório de uma entidade cuja única competência que tem é fiscalizar a atividade dos médicos. Estamos a falar de uma ministra que é da Segurança Social, e acho normal que o secretário de Estado da Saúde tenha lido o relatório, e acho normal que a ministra tenha olhado para os relatórios que lhe chegaram sobretudo através das instituições da Segurança Social, onde ela tem competência para fiscalizar, e quanto ao outro tenha pedido aos assessores que fizessem uma leitura e lhe dessem uma informação global. Também não leio todos os relatórios que chegam aqui ao meu gabinete, porque são umas largas dezenas por dia. Se os meus assessores não tivessem o trabalho de fazer essa leitura e de me dar informação de síntese, não conseguia acompanhar”, explicou o primeiro-ministro na mesma entrevista, onde garantiu que leu o relatório em questão depois da polémica com a ministra.

António Costa, à imagem das suas declarações no início desta semana, voltou a referir-se às “polémicas artificiais” com toda a situação de Ana Mendes Godinho. Questionado exatamente sobre o que considera artificial neste contexto, o primeiro-ministro assume que existe uma tentativa em fazer parecer que o “estado e a ministra desvalorizam a importância do que se passa nos lares pelo facto de não se ter lido um determinado relatório”.

“Primeiro, ao definirmos como prioridade na reforma da saúde a criação dos cuidados continuados e integrados é porque temos bem a noção de que, com a evolução demográfica, a resposta dos lares é insuficiente. Segundo, adotámos desde o início da pandemia um reforço brutal das condições financeiras das IPSS, misericórdias e mutualidades, que aumentou a dotação em 5,5% num ano em que a inflação é negativa. Apoiámos a contratação de milhares de trabalhadores para reforçar as IPSS, fizemos testes massivos, apoiámos financeiramente a aquisição de equipamento de proteção individual e assumimos o custo político dificílimo de, durante meses, termos interditado as visitas de familiares. Estamos ainda agora a adotar mais programas de apoio aos lares. Não se pode dizer que não estamos atentos ao problema”, garantiu António Costa.

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