A cirurgia da mama mudou, regendo-se por menos excessos e mais reflexão. Para Rúben Malcata Nogueira, a exigência dos pacientes e a ética médica tornam a decisão informada mais importante do que nunca. Saiba tudo.
A cirurgia da mama continua a ser uma das áreas mais procuradas da cirurgia plástica, mas está longe de ser um território estático. Ao longo da última década, e de forma particularmente evidente nos últimos anos, os pedidos das pacientes têm-se transformado, havendo menos excessos e mais funcionalidade, assim como menos promessas imediatas e mais reflexão. Há, sobretudo, uma exigência crescente em relação aos resultados, à segurança e à ética médica.
Assim, falar de cirurgia mamária deixou de passar por abordar somente o aumento, a redução ou a elevação, havendo agora um diálogo adjacente sobre estilo de vida, cultura, redes sociais, expectativas muitas vezes irrealistas e, em paralelo, de um aumento preocupante de cirurgias secundárias e de casos associados ao intrusismo médico. Tudo isto obriga a uma abordagem mais cuidadosa, mais explicada e mais responsável, tanto da parte de quem procura a cirurgia como de quem a realiza.
É neste contexto que o cirurgião plástico Rúben Malcata Nogueira, cuja prática clínica se tem destacado precisamente pela cirurgia da mama, tanto primária como secundária, diz que prefere falar em prioridades clínicas, equilíbrio e, sobretudo, uma decisão informada. Falámos com o especialista para perceber o que é, hoje em dia, uma mama “bonita”, dos limites éticos da cirurgia plástica, passando pela escolha do implante, pela importância da consulta e pelos riscos de cair em mãos não qualificadas.

A nova mama “ideal” tem menos volume
A cirurgia estética não vive isolada do mundo, uma vez que, à semelhança dos vários outros campos das nossas vidas, segue tendências culturais, imagens mediáticas e modelos de beleza que circulam nas redes sociais. Rúben Malcata Nogueira reconhece essa influência, mas faz uma distinção clara entre tendências que fazem sentido clínico e aquelas que exigem contenção.
“Existem diferenças culturais evidentes na perceção do que é uma mama bonita“, começa por dizer. Ou seja, o resultado desejado por uma paciente angolana pode ser completamente distinto do de uma paciente suíça, e o cirurgião tem de estar atento a esse contexto. Ainda assim, mesmo no cerne de certos padrões, a regra é sempre a individualização, sendo que generalizar nunca ajuda a decidir um plano cirúrgico.
Contudo, se tivesse de apontar uma tendência dominante na cirurgia mamária atual, o cirurgião não hesita em dizer que é a redução do volume. “Tenho notado, ao longo dos anos, uma mudança muito clara de mentalidade em relação ao tamanho da mama”, explica. E essa mudança traduz-se numa procura crescente pela mamoplastia de redução, cada vez mais valorizada, sobretudo, pelo impacto direto na qualidade de vida.
“É importante do ponto de vista do bem-estar físico – dores nas costas, nos ombros – mas também tem um papel estético muito forte”, acrescenta. Ao contrário do que durante anos dominou o imaginário coletivo, hoje a mama considerada elegante é, nas suas palavras, “uma mama mais pequena, mais leve, mais adaptada ao estilo de vida de uma mulher moderna”.
Espreite um exemplo
Essa “mulher moderna” é ativa, pratica exercício físico, pelo que, segundo o cirurgião, “quer ter uma mama redondinha e bonita, mas não quer uma mama que pesa, que está pendente e que se torna um peso literal na sua vida“. Assim, esta transformação estética acompanha uma transformação social mais profunda, sendo que “reflete muito a mudança do papel da mulher na sociedade”.
O aumento mamário, porém, continua a ser requisitado. “É uma cirurgia que vai sempre existir”, reconhece, sobretudo para pacientes com muito pouco volume. O que mudou foi a forma como lá se chega, sendo que “temos assistido a uma diminuição grande do volume dos implantes utilizados”. Hoje, aumento, redução e mastopexia coexistem de forma equilibrada na sua prática clínica, porque os pacientes chegam com problemas concretos que requerem uma avaliação cuidada.
A técnica não é só um detalhe
Quando se entra no território da cirurgia mamária propriamente dita, Rúben Malcata Nogueira é taxativo ao dizer que não existem soluções universais nem decisões rápidas. Tal como em qualquer outra parte do corpo que seja submetida a um procedimento, existem opções e cada uma exige uma análise.
“Na cirurgia da mama, os implantes podem ser essencialmente de dois tipos: “anatómicos, em forma de gota, ou redondos”, explica. Os primeiros tendem a dar uma transição mais suave entre o tórax e a mama, enquanto os segundos criam um decote mais marcado. E não, ao contrário do que ouvimos dizer há anos, “é um mito que os implantes em gota são sempre naturais e os redondos artificiais“.
O resultado final depende do equilíbrio entre o implante e a anatomia da própria paciente. “Um implante em gota muito grande pode parecer mais artificial do que um implante redondo mais pequeno”, afirma o especialista, enfatizando que é precisamente esse casamento que procura afinar em consulta. “Hoje em dia, já consigo olhar para um paciente, escolher um implante e saber como é que vai ficar”, garante.
A escolha, contudo, não se limita à forma. Também a posição do implante, que pode ser à frente ou atrás do músculo, por exemplo, faz parte da equação, com vantagens e desvantagens para cada um dos casos. “É por isso que a primeira consulta não pode ser uma consulta do género ‘vamos pôr o 280cc e vamos para o bloco’. Não pode ser”, alerta Rúben Malcata Nogueira.
Também no que toca às cicatrizes, a evolução técnica é evidente. “Eu uso cicatrizes de cerca de três centímetros”, refere, explicando que são colocadas em zonas estrategicamente escondidas, como o sulco mamário, pelo que, ao fim de um ano, desafia “muitos pacientes a encontrar a cicatriz“. A maleabilidade dos implantes atuais permite incisões menores e resultados mais discretos, mas, ainda assim, o médico afirma que “não existem cirurgias sem marcas”.
Cirurgias secundárias, intrusismo e quando o dano já está feito

Se há uma ideia que o cirurgião repete, é esta: a cirurgia não é um processo rápido. “A minha prioridade na primeira consulta não é fechar nenhuma cirurgia”, afirma, explicitando que o objetivo “é dar poder de informação”. Na sua prática, todas as intervenções implicam pelo menos duas consultas prévias, sendo a primeira exploratória e a segunda para alinhavar decisões.
“É muito raro marcar cirurgias na primeira consulta“, diz, sublinhando que o tempo médio entre a primeira avaliação e a operação ronda os quatro a seis meses. É muitas vezes quando este processo falha (por pressa, por má indicação ou por mãos erradas de outros profissionais) que surgem as cirurgias secundárias.
“Na minha prática, estes casos têm vindo a aumentar, sobretudo na cirurgia mamária”, admite o especialista, explicitando que uma das razões é a exigência crescente dos pacientes, alimentada pela exposição constante do corpo e dos resultados. Outra, mais grave, é o intrusismo médico, com procedimentos realizados por profissionais sem a devida acreditação.
“Vejo muitos pacientes operados por pessoas sem formação em cirurgia plástica”, afirma, descrevendo situações de sofrimento físico e psicológico profundo com as quais já contactou diretamente em consulta. Nesse sentido, Rúben Malcata Nogueira defende que os pacientes devem confirmar se o médico é especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, inscrito na Ordem dos Médicos e com atividade reconhecida na área.
A par disso, não descura que estes pacientes “são duplamente penalizados”, quando isso acontece. Primeiro pelo mau resultado, que pode passar por assimetrias acentuadas, implantes mal posicionados ou algo mais grave, depois pelos processos legais que os impedem de ser reoperados durante anos. Isto porque “o corpo serve como prova”, admite o cirurgião.
Como se isto não bastasse, por vezes, são deixados com quadros clínicos que nem sempre se podem resolver na totalidade. “Em muitos casos adotamos uma estratégia de damage control: fazemos o melhor possível dentro das condicionantes”, reitera. É precisamente neste ponto, quando o dano já está feito e o risco de repetir erros é real, que Rúben Malcata Nogueira defende que o papel do cirurgião se torna ainda mais exigente.
Quando dizer “não” é parte da ética médica

Para evitar que o ciclo se repita, a resposta não é operar de imediato. Depois de lidar diariamente com as consequências de cirurgias mal indicadas ou mal executadas, Rúben Malcata Nogueira é claro quanto a um dos momentos mais difíceis (e mais importantes) da sua prática clínica: saber recusar. Há situações em que dizer não é, paradoxalmente, “o gesto mais profissional que um cirurgião pode ter”, afirma.
Um dos exemplos mais frequentes surge na cirurgia mamária, quando o problema estrutural da mama não é volume, mas flacidez. Ainda assim, muitos pacientes chegam com a ideia de que a solução passa por colocar implantes cada vez maiores. “Coloca-se um implante maior para compensar a queda da mama, e depois outro ainda maior, e outro”, continua, dizendo que isto só vai agravar o problema.
É aqui que o cirurgião recorre à metáfora que usa frequentemente em consulta. “Eu digo muitas vezes: isto é como um vestido de noiva. Se o vestido está largo, há duas opções – ou se aperta o vestido, ou se vai engordando a noiva“, diz. Na mama, “apertar o vestido” significa aceitar cicatrizes e optar por uma mastopexia; “engordar a noiva” significa aumentar o volume do implante. “E a verdade é que quanto mais engordamos a noiva, mais o vestido vai ceder”, resume.
A curto prazo, o aumento de volume pode dar a ilusão de um bom resultado. A médio e longo prazo, traz consequências previsíveis: mais peso, maior distensão dos tecidos, maior risco de ptose, maior probabilidade de complicações e, inevitavelmente, a necessidade de novas cirurgias. “É uma solução que não é sustentável”, alerta, dizendo que é precisamente nestes casos que alguns cirurgiões sentem a pressão de agradar o paciente.
“Dizer que não coloco aquele implante, ou que aquela cirurgia não é a mais indicada, pode significar que o paciente vá procurar outra opinião”, reconhece. Ainda assim, não hesita em dizer que prefere “perder um paciente a fazer uma cirurgia que vai dar problemas“. Para o especialista, ultrapassar esse limite transforma a prática médica numa lógica puramente comercial e isso é tudo aquilo que tenta evitar.
No fundo, este posicionamento é ético. “Pegar num bisturi é um ato de enorme responsabilidade”, recorda. E num contexto em que a cirurgia estética é cada vez mais exposta, desejada e banalizada, pôr um pé no travão, explicando, contextualizando e recusando quando é preciso, torna-se uma das formas mais claras de proteger o paciente.

