Acha que 24 horas não dá para nada? Há 70 milhões de anos os dias eram ainda mais curtos

Se viver menos meia hora todos os dias já seria difícil para nós, imagine se o dia só tivesse 18 horas. Mas a verdade é que os dias já foram bastante mais curtos.

Várias vezes reclamamos que os dias são curtos, mas se vivêssemos há 70 milhões de anos viveríamos com menos meia hora todos os dias. E como é que sabemos que os dias eram mais curtos? Graças a uma concha bivalve fossilizada desde o tempo do Cretáceo, último período da Era Mesozóica, que tinha sido extinta. Os cientistas descobriram este bivalve chamado Torreites sanchezi e o estudo revelado esta terça-feira, 10 de março, mostra detalhes impressionantes.

“Temos cerca de quatro a cinco dados por dia, e isso é algo que quase nunca se obtém na história geológica”, refere o geoquímico Niels de Winter da Vrije Universiteit Brussel, na Bélgica, no relatório do estudo. Winter acrescenta ainda que o facto de os investigadores conseguirem observar como era um dia há 70 milhões de anos atrás é incrível.

Ao analisar os anéis (cada um correspondente a um ano) do bivalve que viveu durante 9 anos, os cientistas perceberam que a duração de um dia  — determinada pela velocidade de rotação da Terra — aumentou de 23,5 para 24 horas, tendo em conta que a órbita da Terra quase não mudou.

Mas os dias curtos não ficam por aqui: há 1,4 mil milhões de anos os dias tinham apenas 18 horas. Estas duas descobertas não só foram importantes para descobrir como funcionava a Terra há milhares de anos, como também para saber com mais precisão a velocidade com que a Lua se tem afastado do nosso planeta.

O que é facto é que a Lua está a orbitar para longe da Terra a uma taxa de cerca de 3,82 centímetros por ano, de acordo com as medições dos astronautas nas missões Apollo, o que leva os cientistas a concluir que essa taxa possivelmente aumentou com o tempo.

Encontrar mais registos geológicos permitiria calcular a duração dos dias em diferentes pontos da história da Terra, o que também contribuiria para analisar o movimento da Lua com mais precisão e, ao mesmo tempo, quando é que a mesma se formou. Essa é precisamente a expetativa dos investigadores: encontrar fósseis de conchas de moluscos ainda mais antigos.

É que são estes que registam as mudanças na radiação solar e, ao compará-los com os ciclos do Sol ao longo de dezenas de milhares de anos, é estudar como eram os dias nos antepassados.

Contudo, as descobertas não ficam por aqui: através de uma análise química, os investigadores conseguiram ainda perceber que há 70 milhões de anos a temperatura dos oceanos era muito superior, atingindo até 40ºC graus no verão e mais de 30ºC no inverno.

Há ainda uma última revelação sobre este estudo que indica que os anéis da conchas bivalve cresceram de forma mais rápida durante o dia, o que revela que o bivalve Torreites sanchezi formou uma relação simbiótica (associação entre organismos diferentes) com organismos fotossintéticos (absorvem a luz).

“Até agora, todos os argumentos publicados para fotossimbiose em fósseis eram essencialmente especulativos, baseados em traços morfológicos meramente sugestivos, e em alguns casos eram comprovadamente errôneos”, refere o paleobiólogo Peter Skelton, da The Open University, acrescentando que este estudo é o primeiro a sustentar a hipótese.

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