À MAGG, Domingos Coimbra não escondeu a emoção, e falou não só sobre o concerto mais ambicioso da carreira do grupo como também sobre como as suas músicas tocam até pessoas estrangeiras. Leia a entrevista.
Já falta pouco para os Capitão Fausto subirem ao palco da MEO Arena – e, com isso fazerem algo inédito na sua carreira de 15 anos. É no sábado, 24 de janeiro, que a banda portuguesa, agora formada por Tomás Wallenstein, Domingos Coimbra, Manuel Palha e Salvador Seabra, vai dar o seu primeiro concerto em nome próprio na maior sala de espetáculos do País, e promete um espetáculo tão diferente daquilo que habituaram os seus fãs que até falam em novas luzes, novos arranjos e até numa nova canção.
Esse tema é, na verdade, “Escolhas”, que saiu no passado dia 16 de janeiro e que promete ser a primeira de muitas canções inéditas que os Capitão Fausto vão lançar em 2026. Este é um ano que vai marcar pela diferença, até porque com a saída de Francisco Ferreira em 2024, a banda entra agora num novo universo onde a melodia e a palavra vão ter ainda mais destaque. Este recomeço dos Capitão Fausto começa, assim, na MEO Arena, e vai-se espalhar pelos concertos que a banda já tem marcados pela Europa.
À MAGG, Domingos Coimbra não escondeu a emoção, e entre conversas sobre o concerto mais ambicioso da carreira do grupo português até à forma como as suas canções tocam até pessoas estrangeiras, uma coisa é certa: o brilho de atuar e dar a um público novas maneiras de ver a música que começou há 15 anos ainda está bem presente em todos os membros dos Capitão Fausto, e parece que tão depressa não vai embora. “É importante continuar a olhar para esses momentos, porque há ali verdade”, disse. Leia a entrevista e saiba mais sobre o concerto na MEO Arena no final.
Leia a entrevista.
O concerto na MEO Arena tem sido descrito como o mais ambicioso da vossa carreira. Ambicioso em quê, exatamente? Na dimensão, na narrativa? O que é que querem levar até à MEO Arena?
O outro gesto, talvez, tão ambicioso que nós tínhamos feito em carreira foi o concerto do Campo Pequeno, com orquestra. Era outra dimensão, setenta músicos em palco e havia os arranjos todos para fazer para aquele concerto. Aqui é um bocado diferente. Aqui a discografia aumentou, entretanto, e vamos revisitar cinco álbuns. E depois também acho que, de certa forma, por ser a maior sala de espetáculos do País, acaba por ser uma celebração com os fãs e dá-nos também margem para aumentarmos o nosso concerto.
Ou seja, a grande maioria dos nossos concertos, quando os ensaiamos, é para serem repetidos, e aqui é um bocado diferente. Aqui a ideia é mesmo não ser repetível. Portanto, é um palco que não vamos repetir, luzes com as quais não costumamos fazer espetáculos. Todas essas coisas são bastante diferentes e depois lá está, como é uma celebração, há aqui a ideia também de respeitar a discografia da banda.
Como é que traduzimos a identidade dos Capitão Fausto para um espaço que é, pela sua natureza e exatamente aquilo que disse agora, a maior sala de espetáculos do País? É que a banda sempre teve um sentido de proximidade, e a MEO Arena é quase um monumento.
Eu acho que só vendo, mas o que posso dizer é que nós vamos fazer por estar perto. Até ali vamos fazer por estar perto de uma maneira ou de outra, e isso está obviamente na nossa cabeça. É óbvio que numa arena é preciso dar dimensão ao palco e ao espetáculo, mas até da maneira como pensámos o alinhamento e na escolha das canções vai haver essa proximidade, que de certa forma acho que é algo que é desejável.
O Domingos acredita que quem vai à MEO Arena ver os Capitão Fausto hoje é diferente de quem vos seguia no início, em 2009?
Eu diria que é uma mistura. São 15 anos desde que lançámos o primeiro álbum, e acho que já apanhámos um bocado de tudo. Temos pessoas que seguem a banda desde o princípio, temos pessoas que gostam mais dos primeiros álbuns dos Capitão Fausto e que não acompanharam tanto os anos seguintes, mas que se calhar para um concerto destes podem querer ir à celebração. E também, nos últimos 10 anos, a banda ganhou mais público por causa dos “Dias Contados”.
E a verdade é que depois, entre os “Dias Contados”, “A Invenção do Dia Claro” e “Subida Infinita” vai tudo variando um bocado. Talvez hoje nunca tenha havido tanta gente a seguir os Capitão Fausto, e nós principalmente com este álbum sentimos uma maior diferença no público. Muitas pessoas viram pela primeira vez o Capitão Fausto desde a “Subida Infinita”. E portanto, há obviamente aqui um encontro interessante de fãs novos a quem se calhar a discografia antiga da banda não lhes diz tanto, e alguns fãs de longa data a quem coisas novas não dizem tanto respeito.
E montar um espetáculo para isto, para nós é só divertido. Ou seja, como é que estas músicas de diferentes alturas, algumas das quais nós se calhar já não faríamos hoje em dia, como é que elas coabitam num concerto? Esse acaba por ser o desafio mais interessante de montar estes espetáculos de celebração.
E depois de um momento tão simbólico como este, sendo que é a vossa estreia em nome próprio na MEO Arena, o futuro assusta de alguma maneira?
Acho que o medo nunca deve ser a sensação principal. A melhor coisa que aconteceu disto foi a ideia inconcebível há 15 anos de nós algum dia aqui estarmos, e a ideia de estarmos agora mostra que esta ideia de sermos positivos, de nos esforçarmos, de querermos sempre desafiar a banda, de desafiarmo-nos a fazer estas iniciativas, e às vezes estar fora de pé é sinal de que o movimento é vida.
Portanto, não sei para onde é que vamos daqui, se para mais, se para menos. Na verdade, acho que isso não interessa assim tanto, não temos esse tipo de necessidade, mas obviamente que fazer um concerto destes é por si só um arco incrível, e quem sabe possamos fazer outro tipo de desafios mais à frente. Isso é bem incógnito, mas acho que neste momento, só o facto de estarmos a fazer este concerto, já nos enche muito o coração.
A banda lançou a canção “Escolhas” há poucos dias, que aponta para um território novo dentro do universo dos Capitão Fausto. O que é que isto, na prática, significa? O que é que vamos ver daqui para a frente?
Ainda não podemos falar imenso sobre o futuro, mas nós quisemos lançar uma canção antes da MEO Arena que fizesse parte de um próximo projeto que vamos ter este ano. É um projeto que não será convencional, ou pelo menos não é tão parecido com o tipo de música que nós temos vindo a fazer. E não será um álbum no seu sentido convencional, mas vai ser um projeto com alguma música nova.
É outro registo, ou seja, eu acho que as canções, tanto a “Escolhas” como as próximas canções que nós temos, são outro registo completamente diferente da banda, adaptado a este projeto novo que nós vamos anunciar. Esse projeto insere-se, de certa forma, um bocado na mesma filosofia de um concerto como a MEO Arena.
Ou seja, nós gostamos sempre de nos desafiar a ideias novas, ou pelo menos, às vezes, a ideias que nos atirem um bocado da nossa zona de conforto. Este projeto que aí vem é mais um desses momentos em que a banda sai um bocado do seu habitat.
E como é que estas canções, novas e antigas, sobrevivem às diferentes personalidades dentro da banda, que neste momento são quatro, mas já lá vamos, até chegarem à sua forma final?
É um caldeirão de debates desde o princípio da banda. Nós aprendemos a conviver muito bem com as nossas diferenças e sabemos quando temos de marcar um ponto, sabemos quando é que temos de dar espaço ao nosso colega. E eu acho que uma das coisas importantes com este crescimento é o facto de as canções conseguirem chegar mais rapidamente ao seu fim, apesar de, connosco, só sabermos que ele existe quando temos uma data definida para entregar algo.
E depois eu também acho que uma das partes da nossa aprendizagem enquanto músicos é aprendermos a viver confortáveis com a ideia do erro. Ou seja, quanto mais nós nos habituarmos a que um erro é só um erro, seja num estúdio, num processo produtivo, esse erro pode não ser tão grave. Quanto mais nos habituarmos que as coisas ainda podem ser de outra forma, mais rapidamente conseguimos acabar essas canções.
Até porque não existe uma fórmula para uma música ser Capitão Fausto, mas o que eu acho que acaba por acontecer é muitas vezes o nosso processo de composição é um bocado fechado do exterior, e inevitavelmente, pela natureza das nossas amizades e do tempo em que já trabalhamos juntos, vai caminhar para uma coisa um bocadinho mais ao nosso estilo. Mas eu gosto de achar que a próxima coisa que nós vamos lançar é sempre diferente.
Falando aqui só rapidamente sobre a saída do Francisco, a verdade é que o momento marcou o fim da formação original da banda. De que forma é que essa mudança vos obrigou a, talvez, reaprender a tocar ou até mesmo a funcionar como um grupo?
Sem dúvida que isso aconteceu. Quando o Francisco saiu estávamos a ter concertos de apresentação do “Subida Infinita”, então, mesmo por uma razão prática, desafiámos o Miguel Marôco nos teclados e o Fernão Biu nos sopros e guitarra, dois artistas da Cuca Monga, para virem tocar connosco ao vivo. E de certa forma o espetáculo mudou, e nós chegámos a outros sítios com os arranjos.
Depois, quando fizemos os concertos na Europa, achámos que seria uma boa fase para experimentarmos tocar as nossas canções os quatro, e aí o processo de aprender as partes do Francisco foi mais curioso. Isso fez com que o Manuel e o Tomás estivessem sempre com guitarra e teclados, sempre a trocar, porque estávamos a tentar fazer com menos mãos aquilo que cinco faziam.
Mas depois há ali uma altura em que nós tivemos de reformular a maneira como fazíamos alguns arranjos, e ao mesmo tempo isso também foi interessante e lá está, foi mais uma forma da banda se pôr fora de pé para tentar sair daquela situação. E este novo projeto, de onde já saiu a “Escolhas”, já foi a primeira vez que estivemos a compor música aos quatro, e agora estamos mais confortáveis com isso.
No início de janeiro revisitaram imagens do início, do vosso primeiro concerto a tocar originais. Agora que vão pisar a maior sala de espetáculos do País, olhando para trás, o que é que fica?
É um cliché, obviamente, mas eu acho que nós já não estaríamos a fazer isto se ainda não gostássemos todos muito uns dos outros e não fôssemos muito amigos. E, portanto, há um certo brilho que ainda temos, seja neste concerto, seja quando vamos testar um novo formato. Enquanto existir este nervosinho, este brilho por uma novidade, pela aventura, nós vamos continuar, e eu acho que nós ainda temos os primeiros impulsos que nos fizeram seguir esta vida.
É óbvio que há outras coisas que são diferentes, tudo aquilo que nós fazíamos era a primeira vez que o estávamos a trazer, e, portanto, não havia esta repetição, esse lado mais profissional da música. Mas, ao mesmo tempo, é importante continuar a olhar para esses momentos porque há ali uma verdade e nós, à nossa maneira, tentamos, 15 anos depois, ainda trazer um bocado dessa verdade onde ela pode caber.
Muitos descrevem as letras e as melodias como algo que tem camadas. Isso é algo do qual vocês são conscientes no vosso processo criativo ou é algo que vai surgindo naturalmente?
Eu acho que o nosso processo, por ter, lá está, um caldeirão de discussão e de composição, acaba por ser, muitas vezes, muito diverso. E eu não digo isto num sentido qualitativo, não estou a fazer um julgamento de qualidade, mas é naturalmente, por haver muito corte e costura, que existe muitas vezes um maior trabalho em melodia, em contraponto. E depois, lá está, como nas playlists de cada um de nós cabe tanta música diferente, também acaba por haver uma grande junção de várias referências.
Basta fazer um pequeno scroll no Instagram para ver comentários de pessoas do Brasil ou da Grécia a elogiar as vossas músicas, estas tais melodias de que o Domingos fala. Como é que recebem esse carinho?
Com alegria, porque durante muito tempo havia aquela ideia de que um futuro para a música portuguesa não podia viver fora de Portugal. E mesmo que seja num nicho, a ideia de que nós, para além das nossas barreiras linguísticas, conseguimos isso, é muito bom. E claro que connosco há uma dimensão de entender a palavra, especialmente com aquilo que o Tomás escreve.
Por isso é muito bom saber que existe uma pessoa que não percebe o que está a ser dito mas que consegue perceber o que a música carrega. Seja na melodia, seja no arranjo, seja na força, nas cores que ela traduz. E isso a nós dá-nos muita motivação nesta ideia de que a banda também pode ter um caminho que não seja só em Portugal e para um público português. Portanto, é ótimo saber isso.
E falando em músicas e do carinho que existe fora de Portugal, também já está aí à porta uma digressão europeia. São territórios, se pudermos chamar assim, desconfortáveis. O que é que vos atrai nesse desconforto?
O desconforto atrai-nos sempre. E atenção, a palavra desconforto aqui é positiva. É a ideia de voltar a tocar para salas onde não sabemos se vão estar cheias, ao contrário de Portugal, onde temos salas esgotadas e pessoas que percebem o que estamos a dizer. Portanto, nesse sentido, sim, é desconfortável. A verdade é que nós nunca tentámos sequer viajar muito, principalmente pela Europa.
E existe, obviamente, na diáspora portuguesa, um público que gostava de nos ouvir lá fora e que não tem essa disponibilidade. E, portanto, os nossos primeiros concertos fora de Portugal tiveram muito esse contacto com fãs de Capitão Fausto, e foi maravilhoso. Ou seja, esta nova digressão é uma amplificação desse primeiro gesto. Vamos a mais cidades onde não fomos e a salas um pouco maiores porque, felizmente, correu muito bem a primeira aventura.
Sente que os Capitão Fausto, hoje, ocupam um lugar específico na música portuguesa, ou continuam a ver-se mais como uma banda em constante movimento?
Nós somos uma banda em movimento, mas que aceita naturalmente o papel que tem. Eu não digo que seja um papel completamente fixo, mas a verdade é que acho que também podemos olhar com bons olhos a ideia de que bandas consigam chegar a estas salas de espetáculo.
E se isso conseguir inspirar outras bandas e outros artistas a também quererem estudar música, a fazer música, a criarem bandas, nesse sentido, se a nossa banda conseguir fazer alguma coisa por isso ou trilhar um caminho tem um papel específico, teremos todo o gosto. Mas, ao mesmo tempo, nós também não somos muito de ficar parados ou de acharmos que chegámos a um sítio.
Os bilhetes para o concerto na MEO Arena estão disponíveis na MEO Blueticket, mas apresse-se – já não estão muitos lugares disponíveis. Os valores começam nos 25€ para a Plateia B em Pé, 30€ para o Balcão 1 e 35 para a Plateia A em Pé. Tenha em atenção que os lugares no balcão não são marcados, e a Plateia A é a que fica mesmo em frente ao palco.