Dia Mundial do Diabetes. Que aparelho é este que está a mudar a vida dos diabéticos?

Alguns diabéticos precisam de medir os níveis de açúcar no sangue, mas já não têm de fazê-lo apenas através das picadas. Vantagens e desvantagens? Uma endocrinologista explica.

Luís Costa tem diabetes de tipo 1 e durante 23 anos usou o mesmo método de medição da glicose: a picada no dedo. Mas foi com uma pesquisa na internet que descobriu o Sistema de Monitorização Contínua da Glicose (SMCG), que mudou um pouco a sua experiência com a doença.

No Dia Mundial da Diabetes, que se assinala esta quarta-feira, 14 de novembro, a campanha nacional “Quando a cabeça não tem juízo” pretende lançar o alerta sobre esta patologia e divulgar “informação pertinente sobre os fatores de risco, a prevenção e o impacto que uma doença como a diabetes tem”, refere Rui Duarte, presidente da Sociedade Portuguesa Diabetologia, em comunicado de imprensa.

A diabetes afeta 1 milhão de pessoas no nosso País, de acordo com o Observatório da Diabetes em Portugal. Mas o que é afinal esta doença? Para começar, é crónica e está associada à hiperglicémia, ou seja, “níveis elevados de açúcar no sangue, que causam complicações micro e macrovasculares, condicionando lesão de vários órgãos”, explica à MAGG a endocrinologista Carolina Neves, da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. “A hiperglicémia pode ser causada por resistência à ação de insulina, défice de produção de insulina ou ambas”.

Há dois tipos: a diabetes de tipo 2 (que corresponde a 90% dos casos) e a de tipo 1, que Luís descobriu que tinha quando tinha 18 anos. No caso da diabetes de tipo 2, o tratamento passa pela alteração do estilo de vida, como a alimentação e o exercício físico, mas na de tipo 1 o panorama não é o mesmo.

Neste caso há um défice absoluto de produção de insulina, hormona que é essencial ao bom funcionamento do corpo. No caso da diabetes de tipo 1 é necessário administrar insulina de ação rápida antes de cada refeição, além da insulina basal (de ação prolongada).

É por esta razão que Luís pica o dedo entre três a quatro vezes por dia através do glucómetro, de forma a medir os valores de glicose no sangue para que sejam administradas as doses corretas de insulina. Apesar de este método continuar a ser usado por Luís, o Sistema de Monitorização Contínua da Glicose (SMCG) veio trazer algumas vantagens no dia a dia.

Mas em que é que consiste este sistema? “É constituído por um sensor inserido no tecido subcutâneo que se liga, através de um sistema sem fios, a um transmissor que envia e exibe dados dos valores da concentração de glicose no liquido intersticial”, explica a endocrinologista.

O método permite fazer um registo contínuo destes valores, ao contrário do que acontece com vários outros sistemas que exigem o método tradicional da picada no dedo, onde é necessária a calibração com glicémia capilar.

O SMCG mais usado em Portugal é, de acordo com a especialista, o sistema flash (FreeStyle Libre), aprovado pela agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (FDA) dos Estados Unidos em 2017. Este é o primeiro dispositivo que dispensa a calibração e fornece indicadores dos valores da glicose nas últimas 8 horas. Este sensor é colocado na região posterior do braço, devendo ser trocado a cada 14 dias, e é por isso uma opção menos invasiva.

Vantagens sabemos que há. E desvantagens?

“[O SMCG] permitiu uma melhor gestão da diabetes, que se traduziu em baixar a ha1c [hemoglobina glicada]. Reduzi alguma ansiedade que tinha em não saber as tendências de uma subida ou baixa abrupta de glicemia. No dia a dia e no desporto ajuda a saber quando intensificar ou reduzir o esforço e evitar assim hipoglicémias [nível baixo de glicose no sangue]”, conta Luís à MAGG.

Além disso, a endocrinologista indica que este é um método que não implica dor, permite controlar a diabetes de forma rápida em qualquer ocasião, fornece um histórico com registo contínuo dos valores e mostra ainda um gráfico que traça o perfil glicémico das últimas 24 horas.

“Em suma, além de melhorar a qualidade de vida da pessoa com diabetes, permite aos profissionais de saúde ter acesso a maior quantidade de informação que proporciona um tratamento mais adequado e eficaz. No final, a grande vantagem é a evidência de melhoria do controlo metabólico, com menos hipoglicémias e maior tempo de glicémia dentro do intervalo-alvo”, acrescenta a especialista.

Só que nem tudo é perfeito neste método. É que apesar de ser indolor e perspicaz, há um “desfazamento temporal (5 a 10 minutos) entre o valor da leitura e o da glicemia capilar, que tem maior implicação em situações de rápida subida ou descida da glicémia”, diz a endocrinologista, que adianta ainda que “existem alguns casos de reações cutâneas ao sensor, que impossibilitam a sua utilização”.

Luís também refere que este sensor falha no sentido de não permitir fazer as leituras sem necessidade de encostar o leitor ao sensor alocado no braço “e desta forma permitir nativamente a monitorização continua”.

Outra das limitações destacadas pela especialista é o facto de a versão portuguesa do sensor não emitir alertas quando os valores da glicemia estão fora do limite (cujo valor geral deve estar entre os entre 70 e 180 mg/dl).

Outra das desvantagens são os custos associados ao sistema — cujo kit (com leitor e sensor) pode custar 169,90€ — mas a endocrinologista refere que “está aprovada a comparticipação para este grupo de diabéticos, o que torna o sistema acessível para qualquer pessoa, embora seja dispendioso na sua totalidade”. Luís Costa foi um dos vários diabéticos que recorreu a este apoio.

O SMCG dispensa a picada no dedo para medir os valores de glicose?

“O sensor não substitui a glicemia capilar [sistema de picada no dedo]. Esta é necessária e está indicada nas situações em que há variação rápida dos valores, quando a leitura indica hipoglicémia ou valores muito elevados, e, ainda, quando os sintomas não são concordantes com o valor da leitura”, indica a especialista.

No caso da diabetes de tipo 1, como é o caso de Luís, este controlo continua a ser essencial de forma a fazer o acompanhamento dos valores de glicemia várias vezes ao dia. “Faço leituras de glucómetro ao levantar, antes das principais refeições e ao deitar. Visualizo constantemente o libre e fico atento às tendências de subida e descida da glicemia”, explica Luís, que refere ainda que sempre que necessário faz ajustes de insulina quando deteta tendências fora do padrão.

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