Chegado o mês de janeiro, muita gente começa a usar o fenómeno “Dry January” para deixar de beber depois dos excessos das festividades – pelo menos durante um mês. Conheça o movimento e saiba se existem benefícios.
Não é novidade para ninguém: o final do mês de dezembro é o verdadeiro caos no que toca a tentar manter a dieta – não só por causa da quantidade exorbitante de comida que consumimos, como também devido ao excesso de álcool que, por vezes, é feito nesta altura do ano. No entanto, para colmatar essa falha, há vários anos que o movimento “Dry January” (ou janeiro seco, em português) é a desculpa perfeita para muitos, uma vez que se baseia em ficar o primeiro mês do ano sem beber uma pinga de álcool, o que pode ajudar a compensar o estrago do mês anterior.
Mas se não entendeu bem o que é isto, também é fácil de explicar. Como dezembro é considerado o mês dos estragos, janeiro passa a ser o mês do detox, onde as pessoas que se excederam no álcool utilizam o fenómeno “Dry January” para não consumir bebidas alcoólicas, de modo a fazer reset ao organismo depois de tudo o que foi ingerido. Mas fica a questão: será que é assim tão benéfico para a nossa saúde parar de beber álcool durante um mês, mesmo depois de todos os estragos?
“Uma bebida alcoólica é sempre uma agressão ao organismo porque não tem nenhum sentido de nutrição. Se ingerirmos um bolo, por exemplo, ele tem farinha, ovos, componentes nutritivas. No caso do álcool, não existem esses componentes, pelo que é óbvio que há sempre um carácter benéfico para um organismo que, mesmo que por um mês, não tenha a utilização de álcool“, começou por explicar António Hipólito de Aguiar, médico de clinica geral, à MAGG. “Mesmo sendo só um mês, é menos um mês que, supostamente, estamos a fazer uma agressão ao fígado.”

Desta forma, é claro que não é por ficar um mês sem beber que irá ver uma total regeneração do seu fígado, mas a verdade é que notará várias diferenças que podem, possivelmente, metê-lo a pensar em deixar de consumir bebidas alcoólicas. “Da mesma maneira que uma pessoa, quando deixa de fumar, passado se calhar uma semana já sente que sobe as escadas com menos dificuldade, sente que já dá uma corrida para apanhar o autocarro com menos dificuldade, também existem melhorias no caso do álcool”, refere o médico.
Além disso, o facto de não beber durante um mês também ajuda a não ganhar tanto peso, nomeadamente se costuma ingerir uma ou mais cervejas por dia durante um mês inteiro. Isto porque, de acordo com as contas feitas por António Hipólito de Aguiar, cada grama de álcool tem sete calorias, e se beber uma cerveja de 33cl por dia (que conta com 13 gramas de álcool) durante um mês, está, na teoria, a ganhar um quilo a mais todos os meses só a beber cerveja. “Do ponto de vista de benefício para o corpo, tem-no imediatamente se deixar de beber.”
Assim, o “Dry January” não só ajuda a combater a destruição do fígado como ajuda também a combater o excesso de peso, além de fazer com que a pessoa em questão durma melhor. No entanto, o médico acredita que do ponto de vista psicológico também existem benefícios, nomeadamente o facto de sentirmos que não estamos a ficar viciados.
“Há sempre vantagens em sentirmos que não estamos viciados numa determinada substância. Isso significa que eu ainda consigo ter a minha face racional“, explica, dando o exemplo da socialização ligada ao álcool.
“Na minha opinião, as pessoas acabam por se socorrer muito desse hábito. O próprio hábito de sair à noite, nós dizemos ‘vamos beber um copo’, não é? E raras são as pessoas que vão para a noite e não bebem álcool. Portanto, acho que o fenómeno tem sempre esse espírito de se pensar que estamos a fazer alguma coisa durante um mês que sabemos que tem benefícios não só para a saúde como para a cabeça, de sabermos que não estamos dependentes disso para sairmos com os nossos amigos, por exemplo”, disse.
E a questão das gripes também é importante neste “Dry January”, até porque é um mês onde muita gente fica constipada e acaba por abusar nos medicamentos. Isto porque, como salienta António Hipólito de Aguiar, o consumo excessivo de, por exemplo, paracetamol, pode causar uma “inflamação do fígado”, e se alguém ainda tiver o hábito de beber bebidas alcóolicas por cima disso, então “está a prejudicar o seu fígado de uma forma ainda mais evidente”. “Se não tiver, pelo menos durante o mês de janeiro, melhor para o fígado e menos risco para a saúde”, disse.
Tornar o “Dry January” num hábito e não num fenómeno

No final, a verdade é que existe sempre a possibilidade de fazer um “Dry January” o resto do ano, desde que tenha a noção de que pode, efetivamente, controlar os seus hábitos – e que quer, claro, deixar de consumir bebidas alcoólicas. “Uma pessoa que se habitua durante o mês de janeiro a não consumir álcool, vai certamente conseguir autodisciplinar-se, ou pelo menos ter uma maior disciplina, um maior controle, quando fora a hora de decidir se vai beber ou não”, começou por explicar o médico.
“Sabendo que isso é prejudicial para a condução, sabendo que isso é prejudicial para o seu fígado e para a sua saúde, e sabendo que quer deixar de beber de vez, esse autocontrolo pode ser acontecer”, acrescenta, dizendo ainda que outro grande benefício é, claro, saber que é capaz de tomar decisões sem se sentir dependente de algo. “É o empoderamento mental. Saber que consegui, mais que não seja reduzir o meu consumo de álcool, passado o mês de janeiro, de duas cervejas por dia para uma, isso já é um ganho imenso para a saúde“, disse.
“Portanto, se eu me conseguir disciplinar e, ao mesmo tempo, me conseguir consciencializar de que, embora eu goste de beber, vou beber menos porque sou capaz até de aguentar um mês sem beber, então eu estou em condições de definir para o meu futuro que também estarei em condições, e isso é tudo um trabalho mental”, remata António Hipólito de Aguiar. Assim, é notório que o fenómeno “Dry January” traz benefícios, mais não sejam apenas mentais ao saber que consegue, efetivamente, deixar de beber.